Angústia… O tempo será uma ilusão, mas o passado é irreparável

Álvaro de Campos
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Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites, Relembro,
velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver. . .

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida. . .
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.

O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos.
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p’ra mim.

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# Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa
# (1888-1935)

# Mais sobre Fernando Pessoa neste LINK

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# Releia ao som de Lullaby, Nox Arcana…

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Metal Contra as Nuvens

Legião Urbana
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I

Não sou escravo de ninguém
Ninguém, senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E, por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz.

Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais.

Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.

Reconheço meu pesar
Quando tudo é traição,
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos.

Minha terra é a terra que é minha
E sempre será
Minha terra tem a lua, tem estrelas
E sempre terá.

II

Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa.

Quase acreditei, quase acreditei

E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo.

Olha o sopro do dragão…

III

É a verdade o que assombra
O descaso que condena,
A estupidez, o que destrói

Eu vejo tudo que se foi
E o que não existe mais
Tenho os sentidos já dormentes,
O corpo quer, a alma entende.

Esta é a terra-de-ninguém
Sei que devo resistir
Eu quero a espada em minhas mãos.

Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.

Não me entrego sem lutar
Tenho, ainda, coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então.

IV

– Tudo passa, tudo passará…

E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.

E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos.
O mundo começa agora
Apenas começamos.

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# “Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
# Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
# Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão”

#E assim é que é…

Chuva no Jardim da Gaiola

Cristina Leal
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Fosse eu água
Como poderia flutuar?

Mas penso no prazer
que deve “ser água”

E aguar…

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# Mais uma noite no jardim da gaiola…
# O céu estava nublado e na direção do mar
# Podia-se ver a chuva chegando lentamente,
# O pouco que a Menina Zumbi podia ver do
# Céu era azul acinzentado e os primeiros pingos de
# Chuva já começavam a cair…
# Ela, como adorava água,
# Aproximou-se um pouco mais da grade,
# E pode então sentir a pele se molhar
# Enquanto apreciava o brilho dos
# Relâmpagos que vinham da direção contrária…
# Sentiu a falta do Menino dos Olhos de Diamante
# E desejou de todo o coração que ele estivesse ali…
# A chuva fina continuo até o amanhecer…

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# “How I wish, how I wish you were here
# We’re just two lost souls
# Swimming in a fish bowl,
# Year after year,
# Running over the same old ground.
# What have we found?
# The same old fears
# Wish you were here”

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Melhor ler ouvindo Wish You Are Here, Pink Floyd…

Fragmentos…

Cristina Leal
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Imagens refletidas
Em espelhos distorcidos
Explodem em fragmentos
Pedaço de uma existência

Fragmentos de reflexos
Misturados à distorção
Refazem imagens já perdidas
Entre passado e futuro

Gritos mudos em
Frases desfeitas
Perdem-se nas marcas
Que o sangue não escorre

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# Enquanto o Menino dos Olhos de Diamante
# Dormia em alguma floresta, choveu…
# Passado e futuro se misturaram
# Na dança do vento…
# A Menina Zumbi
# Se encheu de coragem
# E preparou-se para uma longa jornada
# Solitária e  necessária…

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# “You’ve had your last regrets
# Reached your final depths, deepest pits
# Stepped aside for the world to pass you by
# Chose to leave the fear
# You are stuck in a world of deadlocks
# This time it’s real, this time it’s for real…”

# Deadlocked, Tristania

Calor do Vento…

Cristina Leal
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Ah, infinito canto
Que ouço enquanto
Danço…

Ah, infinita dança
Que só pára quando
O canto acaba

Mas o canto
Não pára nunca…

Continuo então a girar…

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# De repente a visão da Menina Zumbi se abriu,
# Podia olhar agora em todas as direções…
# Percebeu o jardim da gaiola girar ao redor dela e
# Neste mundo novo sentiu ao seu lado o
# Menino dos Olhos de Diamante…
# Quanto mais ventava,
# Mais o sentia e então,
# Ela sentiu calor e enrubesceu…

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Ler, de preferência ao som de Tristania, Year of the Rat

Sentimento Sozinho

Cristina Leal
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Cheiro de chuva
Terra molhada
Corpo molhado
Pele é teu cheiro

Cheiro de mato,
De vida, de sonho,
Amor e paixão
Desejo e prazer

Úmida pele
Que cobre meu corpo
Inunda-me e então
Satisfaz minha alma

Deitado entre pernas
Descansa e anuncia
Estiada a chva
É quase dia…

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# A Menina Zumbi tentou
# Desesperadamente voar
# Mas não consegui cantar
# Então mais uma noite ela
# Choveu no jardim da gaiola…

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Melhor ler ao som de Still Loving You, Sonata Arctica

Vento no Litoral

Legião Urbana
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De tarde quero descansar
Chegar até a praia e ver
Se o vento ainda esta forte
E vai ser bom subir nas pedras

Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando
Tudo embora…

Agora está tão longe
ver a linha do horizonte me distrai
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos
Na mesma direção
Aonde está você agora
Alem de aqui dentro de mim…

Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você esta comigo
O tempo todo
E quando vejo o mar
Existe algo que diz
Que a vida continua
E se entregar é uma bobagem…

Já que você não está aqui
O que posso fazer
É cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos,
Lembra que o plano
Era ficarmos bem…

Eieieieiei!
Olha só o que eu achei
Humrun
Cavalos-marinhos…

Sei que faço isso
Pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando
Tudo embora…

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# Saudades de tu maninho…

 

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Dj Caju / Marcos Leal
[in memoriam]
1965-1994