Sobre a Razão e a Paixão…


Por Khalil Gibran
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E a sacerdotiza voltou a falar e disse, Fala-nos da Razão e da Paixão.
E ele respondeu, dizendo:

A vossa alma é muitas vezes um campo de batalha, em que a vossa razão e o vosso julgamento estão em guerra contra a vossa paixão e o vosso apetite. Pudesse eu ser o pacificador da vossa alma e transformaria a discórdia e a rivalidade dos vossos elementos numa união e melodia.

Mas como o poderia fazer, a menos que vós também fosseis pacificadores, amantes de todos os vossos elementos?

A vossa razão e a vossa paixão são o leme e as velas da vossa alma navegante. Se um de vós navegar e as velas se partirem, só podereis andar à deriva ou ficar imóveis no meio do mar. Pois a razão, só por si, é uma força confinante; e a paixão, não controlada, é uma chama que arde provocando a sua própria destruição.

Por isso deixai a vossa alma exalar a vossa razão até ao auge da paixão, de forma a poder cantar; E deixai que ela oriente a vossa paixão com razão, de forma a que a vossa paixão possa viver através da sua ressurreição diária, e, qual fénix, renascer das próprias cinzas.

Eu comparo o vosso julgamento e o vosso apetite com dois hóspedes queridos que recebeis na vossa casa. Com certeza não irieis favorecer um mais que o outro; pois aquele que o fizer perderá o amor e a confiança dos dois.

Entre as colinas, quando vos sentais à sombra fresca dos brancos álamos, disfrutando da paz e serenidade dos campos e prados distantes deixai o vosso coração dizer silenciosamente, “Deus repousa na razão”.

E quando vier a tempestade, e o vento forte assolar a floresta, e a trovoada e os relâmpagos proclamarem a majestade do céu, deixai que o vosso coração diga “Deus move-se na paixão”.

E uma vez que sois um sopro na esfera de Deus e uma folha na floresta de Deus, também vós devieis repousar na razão e mover-vos na paixão.

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# “…Quero vivê-lo em cada vão momento
# E em seu louvor hei de espalhar meu canto
# E rir meu riso e derramar meu pranto
# Ao seu pesar ou seu contentamento…”

# E assim é que é…

Sobre o Autoconhecimento…

Do livro: O Profeta – Kalil Gibran
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Então um homem disse,
Fala-nos do autoconhecimento.

E ele respondeu, dizendo:
Os vossos corações conhecem em silêncio os segredos dos dias e das noites.
Mas os vossos ouvidos anseiam pelo som do conhecimento do vosso coração.
Vós sabeis por palavras aquilo que sempre soubestes em pensamento.
Tocais com a ponta dos dedos o corpo nu dos vossos sonhos.
E ainda bem que assim é.

A nascente oculta da vossa alma deve erguer-se e correr a murmurar para o mar, e o tesouro das vossas profundezas infinitas será revelado perante os vossos olhos.
Mas que não haja medidas para pesar o vosso tesouro desconhecido;
E não procureis as profundezas do vosso conhecimento com limites.
Pois o ser em si não tem limites nem medidas.

Não digais “Encontrei a verdade”, mas antes “Encontrei uma verdade.”
Não digais “Encontrei o caminho para a alma”, mas antes “Encontrei a alma a seguir o meu caminho”.
Pois a alma percorre todos os caminhos.
A alma não percorre uma linha, nem cresce como um caniço.
A alma desvenda-se a si própria como um lotus de incontáveis pétalas.

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# E quando pensamos “vi quase tudo, senti quase tudo”
# é quando a vida mostra que ainda nem começamos a engatinhar…

# Dedico este post àquelas pessoas que por estarem sempre em busca
# de conhecimento, tornam-se ainda mais especiais. São corações e
# mentes iluminados, abertos e incansáveis na busca… uma riqueza!

# “Mas que não haja medidas para pesar o vosso tesouro desconhecido;
# E não procureis as profundezas do vosso conhecimento com limites.
# Pois o ser em si não tem limites nem medidas.”
# [Gibran]

Sobre o Trabalho

Extraído do livro O Profeta de Kalil Gibran
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Depois um operário disse-lhe, Fala-nos do Trabalho.
E ele respondeu, dizendo:

Vós trabalhais para poder manter a paz com a terra e a alma da terra.

Pois ser ocioso é tornar-se estranho às estações e ficar afastado da procissão da vida que marcha majestosamente e com orgulhosa submissão em direção ao infinito.

Quando trabalhais sois uma flauta através da qual o sussurro das horas se transforma em música.

Qual de vós quereria ser uma cana muda e silenciosa, quando tudo o resto canta em uníssono?

Sempre vos disseram que o trabalho é uma maldição e o labor um infortúnio.

Mas eu digo-vos que quando trabalhais estais a preencher um dos sonhos mais importantes da terra, que vos foi destinado quando esse sonho nasceu, e quando vos ligais ao trabalho estais verdadeiramente a amar a vida, e amar a vida através do trabalho é ter intimidade com o segredo mais secreto da vida.

Mas se na dor chamais ao nascimento uma provação e à manutenção da carne uma maldição gravada na vossa fronte, então digo-vos que nada, excepto o suor na vossa fronte, apagará aquilo que está escrito.

Também vos foi dito que a vida é escuridão, e no vosso cansaço fazeis-vos eco de tudo o que os cansados vos disseram.

E eu digo que a vida é mesmo escuridão exceto quando existe necessidade,
E toda a necessidade é cega exceto quando existe sabedoria.
E toda a sabedoria é vã exceto quando existe trabalho,
E todo o trabalho é vazio exceto se houver amor;

E quando trabalhais com amor estais a ligar-vos a vós mesmos, e uns aos
outros, e a Deus.

E o que é trabalhar com amor?

É tecer o pano com fios arrancados do vosso coração, como se os vossos bem amados fossem usar esse pano.
É construir uma casa com afeto, como se os vossos bem amados fossem viver nessa casa.
É semear sementes com ternura e fazer a colheita com alegria, como se os vossos bem amados fossem comer a fruta.
É dar a todas as coisas um sopro do vosso espírito, e saber que todos os abençoados defuntos estão à vossa volta a observar-vos.

Muitas vezes vos ouvi dizer, como se estivesseis a falar durante o sono,

“Aquele que trabalha o mármore e encontra na pedra a forma da sua própria alma é mais nobre do que aquele que trabalha a terra. E aquele que agarra o arco-íris para o colocar numa tela à semelhança do homem, é mais do que aquele que faz as sandálias para os nossos pés.”

Mas eu digo, não no sono, mas no despertar, que o vento não fala mais docemente com o carvalho gigante do que que com a mais ínfima erva; E é grande aquele que, sozinho, transforma a voz do vento numa canção tornada doce pelo seu amor.

O trabalho é o amor tornado visível.

E se não sabeis trabalhar com amor mas com desagrado, é melhor deixardes o trabalho e sentar-vos à porta do templo a pedir esmola àqueles que trabalham com alegria.

Pois se fizerdes o pão com indiferença, estareis a fazer um pão tão amargo que só saciará metade da fome.
E se esmagardes as uvas de má vontade, essa má vontade contaminará o vinho com veneno.
E se cantardes como anjos mas não apreciardes os cânticos, estareis a ensurdecedor os ouvidos do homem às vozes do dia e às vozes da noite.
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# A importância de fazer as coisas com amor é enorme… o produto final de um trabalho
# feito com paixão tem um brilho especial não apenas para quem o realizou, mas para
# qualquer um que tenha o mínimo de sensibilidade!