O Menino Robô

Tim Burton
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“…Senhor e senhora Silva levavam uma vida sossegada.
Vida de gente normal, feliz e bem casada.
Um dia tiveram uma notícia que encheu o marido de contentamento:
A mulher esperava um filho,
E ele ia ser pai do rebento!
Mas algo deu errado naquele mar de felicidade.
A criança era… um robô!
Não parecia gente de verdade.
Um bebê nem quente nem fofo, que estranho!
A pele: uma fria e fina chapa de estanho.
Da cabeça lhe saiam antenas e fios.
E ele ficava largado, sempre com olhos parados,
Nem morto nem animado.

Quando até a tomada um longo fio elétrico se estedia,
Este era o único momento do dia
Em que ele ficava cheio de energia.

O senhor Silva não conteve os berros:
“O doutor não cometeu um grave erro?
Nem sangue nem carne tem o menino,
mas é uma simples liga de alumínio!”

O doutor, gentil, lhe respondeu:
“O que vou lhe dizer
Pode parecer extravagante
Mas o senhor não é o pai desse garoto mutante.
Veja bem, a questão não é simples
e requer investigação profunda,
mas achamos que o pai dele
É um forno micro-ondas.”

Agora a vida dos Silva
Tornou-se um fardo pesado.
A senhora odiava seu marido,
e ele já não se via mais casado.
Não perdoou a esposa por aquela
ligação mesquinha:
A união carnal
Com um aparelho de cozinha.

Apesar de tudo, o menino cresceu
E se tornou um robô jovem.

Mas muitas vezes o confundem
Com a lata de lixo da garagem…”

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# E assim é que é…

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Invictus!

William Ernest Henley
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De dentro da noite que me cobre,
Negra como a cova, de ponta a ponta,
Eu agradeço a quaisquer deuses que sejam,
Pela minha alma inconquistável.

Na cruel garra da situação,
Não estremeci, nem gritei em voz alta.
Sob a pancada do acaso,
Minha cabeça está ensanguentada, mas não curvada.

Além deste lugar de ira e lágrimas
Avulta-se apenas o Horror das sombras.
E apesar da ameaça dos anos,
Encontra-me, e me encontrará destemido.

Não importa quão estreito o portal,
Quão carregada de punições a lista,
Sou o mestre do meu destino:
Sou o capitão da minha alma.

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# E como à muito tempo desejava,
# Neste dia a Menina Zumbi
# Caminhou sozinha até o mar,
# Sentiu medo por estar
# Fora do jardim da gaiola,
# Mas seu pés a levaram mesmo assim…
# Enquanto se maravilhava
# Com a breve liberdade, pensou
# No Menino dos Olhos de Diamante e
# Desejou poder compartilhar com ele
# Toda a coragem que sentia…

# Finalizado aquele momento,
# Recitou em seu coração
# O poema Invictus de William Henley
# Repetindo muitas vezes:

# “Não importa quão estreito o portal,
# Quão carregada de punições a lista,
# Sou o mestre do meu destino:
# Sou o capitão da minha alma.”

# Voltou então ao seu jardim
# Sentindo-se orgulhosa de sua coragem!

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Leia ao som da música Shy, Sonata Arctica!
“Make sure that you can’t see me, hoping you will see me…

# Ao Grande Mestre com carinho…

O pôr-do-Sol…

Por Antoine de Saint-Exupéry
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Assim eu comecei a compreender, pouco a pouco, meu pequeno principezinho, a tua vidinha melancólica. Muito tempo não tiveste outra distração que a doçura do pôr-do-sol. Aprendi esse novo detalhe quando me disseste, na manhã do quarto dia:

– Gosto muito de pôr-do-sol. Vamos ver um …
– Mas é preciso esperar.
– Esperar o quê?
– Esperar que o sol se ponha.

Tu fizeste um ar de surpresa, e, logo depois, riste de ti mesmo. Disseste-me:
Eu imagino sempre estar em casa!

De fato. Quando é meio-dia nos Estados Unidos, o sol, todo mundo sabe, está se deitando na França. Bastaria ir à França num minuto para assistir ao pôr-do-sol. Infelizmente, a França é longe demais. Mas no teu pequeno planeta, bastava apenas recuar um pouco a cadeira. E contemplavas o crepúsculo todas as vezes que desejavas. . .

Um dia eu vi o sol se pôr quarenta e três vezes!
E um pouco mais tarde acrescentaste:
Quando a gente está triste demais, gosta do pôr-do-sol …
– Estavas tão triste assim no dia dos quarenta e três?
Mas o principezinho não respondeu.

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# Ontem eu vi o sol se por quarenta e três vezes…
# Tempo de recomeçar!

Angústia… O tempo será uma ilusão, mas o passado é irreparável

Álvaro de Campos
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Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insónia, substância natural de todas as minhas noites, Relembro,
velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver. . .

Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida. . .
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.

O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos.
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p’ra mim.

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# Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa
# (1888-1935)

# Mais sobre Fernando Pessoa neste LINK

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# Releia ao som de Lullaby, Nox Arcana…

Metal Contra as Nuvens

Legião Urbana
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I

Não sou escravo de ninguém
Ninguém, senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E, por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz.

Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais.

Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.

Reconheço meu pesar
Quando tudo é traição,
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos.

Minha terra é a terra que é minha
E sempre será
Minha terra tem a lua, tem estrelas
E sempre terá.

II

Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa.

Quase acreditei, quase acreditei

E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo.

Olha o sopro do dragão…

III

É a verdade o que assombra
O descaso que condena,
A estupidez, o que destrói

Eu vejo tudo que se foi
E o que não existe mais
Tenho os sentidos já dormentes,
O corpo quer, a alma entende.

Esta é a terra-de-ninguém
Sei que devo resistir
Eu quero a espada em minhas mãos.

Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.

Não me entrego sem lutar
Tenho, ainda, coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então.

IV

– Tudo passa, tudo passará…

E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.

E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos.
O mundo começa agora
Apenas começamos.

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# “Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
# Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
# Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão”

#E assim é que é…

A Menina Zumbi e o Jardim da Gaiola


Cristina Leal
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No jardim da gaiola a menina chorou
Suas asas cortadas não sabiam crescer
Em seus olhos a névoa que outrora foi cor
Acinzentaram as lágrimas que tanto prendeu

Pela manhã viu os pássaros voarem de lá
Percebeu então quão pequenina ficou
Suas asas cortadas queriam gritar
Mas seus olhos cerraram para não sentir dor

Então chorou mais…

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# Dedico a pequena Menina Zumbi
# que ainda permanece presa em seu jardim.